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Quarta-feira sempre desce o pano

Gustavo Müller para eAgora, 08/02/10

Passado o carnaval volta-se ao mundo da realidade na qual, infelizmente, a fantasia não tem mais lugar.

No Brasil as turbinas das eleições presidenciais estarão acesas. Porém, no mundo, um outro debate se impõe: o que fazer com as dívidas dos bancos privados que foram incorporadas pelos governos no auge da crise?

Talvez o crescimento dos déficits públicos seja o efeito estrutural de longo prazo da crise financeira de 2008.

No auge da crise econômica não havia muito o que discutir, ou o Estado intervinha ou teríamos uma crise sistêmica pior que a Grande Depressão de 1929. Contudo, o leque de alternativas é pequeno. Não se pode mais pensar em uma onda de privatizações porque não há poupança privada e porque não há como reeditar um liberalismo econômico que permitiu a emissão de títulos podres.

Por outro lado, a emissão de títulos dos Tesouros Públicos pode gerar em pouco tempo uma nova crise na qual o Estado não mais poderá intervir por falta de credibilidade.

Os cortes de despesas possuem um limite político. Muito do que já foi reduzido dos welfare states geraram reações populares violentas indicando que o cidadão civilizado não aceita o jogo do capitalismo selvagem. Esse cidadão exige a presença do Estado na saúde, na educação e na previdência.

Esta é uma encruzilhada que se imporá, em maior ou menor dose, a todos os países, inclusive ao Brasil.

Para nós, que nos últimos anos assistimos uma expansão do gasto público, o fantasma da inflação poderá voltar a nos assombrar, principalmente se, devido ao processo eleitoral, o governo cercear a autonomia do Banco Central.

O fato é que a nossa lição de casa está incompleta. O Brasil, tão badalado como potência emergente, é obrigado a recuar de suas pretensões toda vez que o crescimento econômico ameaça romper a barreira dos 5%.

É importante frisar que o sistema capitalista vive de ciclos econômicos. Talvez o que esses primeiros dias de 2010 venham nos mostrar é que a inflação, que parecia banida da economia globalizada, possa tornar-se o maior problema econômico do período pós crise.

Certamente esse é um debate que estará na pauta das eleições presidenciais, e os candidatos serão desafiados a propor soluções para esse novo dilema imposto por uma conjuntura internacional adversa.

Resta-nos lamentar pelas reformas que deixarão de ser realizadas durante a bonanza.

Professor de Ciência Política da UFSM

política ·
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