Sobre                        Contato                        Arquivo

Sem lenço e com documento

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 06/09/09

image

A sanção recente da lei que anistia cerca de 50 mil estrangeiros clandestinos no Brasil é um gesto positivo no capítulo dos direitos humanos.  Mas é cedo para se avaliar os desdobramentos da medida moralmente justa, que terá decorrências sociais e econômicas.

Imigrantes clandestinos são os que mais engrossam as estatísticas de trabalho escravo urbano, caso dos bolivianos na indústria de confecção de coreanos. A anistia abre o caminho para que possam entrar no mercado formal de trabalho, mesmo que na situação atual isso possa significar muito mais trabalhador à procura de trabalho do que trabalhador empregado.

No governo Fernando Henrique Cardoso houve uma primeira tentativa de anistiar os imigrantes clandestinos. Justamente em relação aos bolivianos, proporcionalmente poucos procuraram as autoridades para a regularização de sua presença no Brasil. Descobriu-se depois que muitos estavam endividados na Bolívia para obter os meios que lhes permitissem vir para cá. Suas famílias haviam ficado reféns de credores inescrupulosos e agiotas que são parte de um sistema de recrutamento de força de trabalho que depende justamente da clandestinidade do imigrante. A lei de anistia do governo Lula aos imigrados clandestinos não resolve esse problema. 

É exagerado, por outro lado, supor que o Brasil trata corretamente os estrangeiros que aqui querem radicar-se ou que a nova lei segue uma generosa e antiga tradição de acolhimento de estrangeiros. Todos sabemos que amplos contingentes da população brasileira, milhões de pessoas, descendem de estrangeiros, especialmente no Sudeste e no Sul.

Mas não foi propriamente acolhimento o modo como os ascendentes desses brasileiros de pouco mais de um século foram trazidos e recebidos no país. Desde a chamada Grande Imigração, de 1886-1888, especialmente para São Paulo, o estrangeiro aqui chegou cercado de limitações e interdições. A questão da imigração se pôs em decorrência do fim próximo e visível da escravidão. Para que não tivessem acesso fácil à terra e se vissem obrigados a trabalhar nas grandes fazendas de café, foram recrutados imigrantes deliberadamente pobres que passariam longos anos trabalhando em terra alheia até que pudessem ter sua própria terra.

Os pagamentos monetários ínfimos, em vez de salários verdadeiros, criaram um sistema econômico e social que retardou em pelo menos três gerações a possibilidade de que pudessem se tornar donos de terra e trabalhar para si mesmos.

Professor Emérito na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Dentre outros livros, autor de A Imigração e a Crise do Brasil Agrário (1973); O Cativeiro da Terra (1979); Conde Matarazzo - o Empresário e a Empresa (1967); O Imaginário na Imigração Italiana (2003).

desenvolvimento social ·
Enviar   Imprimir  

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Que onda!

Guilherme Fiúza viu na onda Luíza o fim da opinião pública tal como conhecemos. Pode ser. E daí?

Pesos e medidas

Nelson Breve, que hoje dirige a Empresa Brasileira de Comunicação, já foi mais exigente em matéria de critérios jornalísticos. Em 2006 ele se incomodava com a falta de checagem de informações.

Verniz fino

Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, Dilma Rousseff posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Flor do pântano

A participação secundária de Dilma num escândalo de corrupção no governo do Rio Grande do Sul mostra o mesmo padrão de conduta que ela segue hoje.

Louco amor

"Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!" O desabafo de FHC sobre Quércia, lembrado por Jorge Bastos Moreno, me fez pensar no amor dos intelectuais pelo operário Lula.

Rio alto astral

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Em São Paulo não há nada parecido. Por que será?

Dedões a mil

Parece que Ruy Castro nunca digitou nem prestou atenção um garoto digitando num celular. Achei um clip para ele ver.

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha.

A novela dos caças

Aldo Pereira sugere uma solução mista para a escolha do caça da Força Aérea Brasileira: uma esquadrilha sueca, outra americana. E para a França, nada? Pobre Sarkozy...

De onde vem o novo

Eric Hobsbawn explica por que a velha esquerda ficou de fora dos protestos que varreram o mundo em 2011. O novo motor das revoluções é a classe média, principalmente os jovens estudantes.

À nossa!

A indústria do vinho é uma das boas coisas da globalização. Mais e melhores vinhos, relativamente mais baratos, para nós, plebeus deste planeta.

Bolsa turismo

O real artificialmente valorizado é um verdadeiro programa de transferência de renda - do Brasil para Miami. The New York Times publica flagrantes dessa invasão.

Resposta aos difamadores

Verônica Serra divulgou a nota que transcrevo a seguir, a propósito do mais recente dossiê - este em forma de livro - fabricado contra o PSDB.

De olho na biruta

Beto Richa glosa o mantra do PSDB: "Esses anos todos: comunicação, comunicação é o nosso problema. E não conseguem achar o caminho." Por que será?
Mais posts