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Significado & contexto

Roberto DaMatta, O Globo, 16/11/11

Diz um velho ditado que “pornografia é uma questão de geografia”. Mude-se e veja que o imoral em sua terra, é mandamento alhures. Quando cheguei nos Estados Unidos, pelos idos de 1963, um mentor, que conhecia o Brasil melhor do que eu, avisou: quando você for convidado para um jantar, jamais vá sozinho, como se faz no Brasil. Vá com sua mulher, como fazemos a aqui.

Tomei a observação como um misto de reproche e aula de etiqueta, mas não perdi de vista a sua dimensão cultural, pois o que estava em pauta eram modos diversos de reunião. As “turmas” brasileiras — geralmente agrupadas na “rua” (em bares e botequins) — congregavam homens. Em Cambridge, Massachusetts, entretanto, eu — um tanto perturbado — aprendi uma sociabilidade mais caseira, aberta e mais igualitária, da qual minha mulher participava comigo e não por minha causa — ao meu lado, não atrás de mim. Descobri que o elo matrimonial era compulsório na tal América onde havia divórcio & assédio e não existia a boa e emocionante “cantada”; mas era opcional do meu Brasil de Niterói, então chamada de “cidade sorriso”, hoje uma urbe desgovernada. Como levar a “esposa” (sobretudo se ela era bela e inteligente) a uma festa onde se falava de tudo — principalmente de “política” — e, entrementes, um sujeito queria “comer a mulher do outro” como me ensinou um outro mentor importante, mas obviamente brasileiro?

Altere o contexto, faça a passagem, e os motivos e os papéis mudam de significado.

Governar é administrar a coisa pública com a legitimidade dos votos da maioria. Mas na era Lula-petista, governar é “cuidar” do povo. Voltamos, com ajuda das ONGs lidas à brasileira, à temporada do “clã político” de Oliveira Vianna e da família patriarcal de Gilberto Freyre, com pitadas ideológicas que racionalizam posições, já que ganhar muito em pouco tempo é bom demais. Os dirigentes são pais e mães do povo. Sobretudo dos “pobres” — que têm a sua posição social solidificada por uma carteirinha de plástico. Que os “pobres” devam ser reparados eu não tenho a menor dúvida. A questão, como se descobriu na Inglaterra Vitoriana, dos Gladstones e dos Disraelis, é saber quem é efetivamente pobre e, mais complicado que isso, como tirar o assistido da passividade contida no assistencialismo para integrá-lo ativamente no sistema produtivo.

Meu velho pai, que foi um homem soturno, me disse um dia, seco como uma folha de chá: “No Brasil, governar é roubar!” Fiquei chocado, mas, entre a sua opinião e a dos meus mentores socialistas e comunistas, pendemos mais para o governar como sinônimo do “cuidar” e do “roubar” do que para o do liberal, competitivo e, dizem, eficiente estilo de governar administrando ou gerenciando.

De um lado, há o personalismo que permeia a centralização nacional que tem uma burocracia e uma legislação sofisticada, mas que opera de modo desigual, confirmando e reafirmando, em vez de desconstruir, a desigualdade. No Brasil, o aparelho burocrático não funciona sine ira et studio (sem cólera ou parcialidade), como queriam Tácito e Weber. Antigamente dizia-se “aos amigos tudo aos inimigos a lei”; hoje somos mais eficazes (e cínicos), pois simplesmente “blindamos” quem pratica os “malfeitos”.

Malfeitos. Eis, caros leitores, um eufemismo brutalmente pueril, regressivo emocionalmente, que situa a nossa moralidade pública no nível das fábulas infantis dos pequenos príncipes e filósofos! Ministros, senadores, governadores, deputados, prefeitos e secretários de governo que montam esquemas e repassam para agentes dos seus partidos, mascarados de ONGs, verbas do povo, não estão praticando veniais “malfeitos”. Estão é roubando, como dizia papai. Roubando recursos que são da sociedade e do Brasil, não do governo. Dai essa centralização burocrática pervertida porque, diferentemente das originais, ela não opera impessoal e anonimamente, pois o que conta é quem fez e não o que foi feito.

Resumo da ópera: em outros mundos, a burocracia é a “jaula de ferro” que bloqueia o carisma e reduz a “Política” (com “p” maiúsculo) — lida, entre outros, por Max Weber — como a esfera social da criatividade e da transformação no mundo. No Brasil, entretanto, esse conflito não existe. A burocracia está inteiramente sujeita ao político. Um político que se reduz ao “pequeno poder” das agendas do velho projeto pessoal ibérico de ficar rico (tornando-se ao mesmo tempo — eis o Paraíso — inimputável legalmente) ocupando cargos públicos. Ficando por cima. Virando, como disse um vereador de Taubaté, o sr. Rodson Lima do PP, que não me deixa mentir, um “príncipe” e, por isso, está agradecido aos seus eleitores que o aristocratizaram.

Ou seja: no “puder” e por “cima”. O “poder” entre nós é um elevador que só segue para cima, mas à custa da nossa energia. Gastando a eletricidade e a dignidade dos cidadãos comuns plantados no chão.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

democratização · corrupção, paternalismo
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