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Sobe e desce no humor dos mercados

Amir Khair, O Estado de S. Paulo, 04/12/11

Há um sobe e desce no humor dos mercados de acordo com anúncios positivos e negativos de cada dia. O melhor anúncio recente foi o da decisão, no último dia 30, dos bancos centrais dos Estados Unidos, Europa (BCE), Canadá, Grã-Bretanha, Japão e Suíça, que concordaram em reduzir o custo das linhas de crédito a partir de 5 de dezembro.

Segundo o comunicado, o objetivo é “aliviar as tensões nos mercados financeiros e, assim, mitigar os efeitos de tais apertos sobre a oferta de crédito às famílias e empresas, e assim ajudar a promover a atividade econômica”.

Esses bancos concordaram em facilitar e ampliar até fevereiro de 2013 os intercâmbios de divisas entre si, a um juro reduzido de 0,5%, assim como, em alguns casos, prosseguir com suas operações de refinanciamento a três meses até nova ordem. É para garantir liquidez e evitar que os mercados de crédito travem. Os bancos europeus já encontram dificuldades para obter financiamentos de curto prazo, em meio a dúvidas sobre a capacidade da região de lidar com a crise da sua dívida.

Essas notícias animaram as bolsas de valores de todo o mundo. A nossa chegou a crescer acima de 4%, fechando em 2,85%.

Junto com essa boa notícia, há um wishful thinking numa parte das análises sobre o desenrolar da crise da zona do euro. Há apostas de um pouso suave para essa crise, como se, por milagre, os agudos problemas econômicos, fiscais e financeiros pudessem ser resolvidos com injeções de liquidez no seu sistema financeiro entupido de títulos podres dos governos que estão entrando em forte recessão e com sérios problemas sociais inerentes ao aperto fiscal que sofreram.

Nada mais enganoso. O editorial do Estado do último dia 25 coloca o problema com realismo: “A crise de confiança chegou afinal ao coração da Europa, a Alemanha, maior economia do bloco e sócio mais importante da união monetária. O sinal de alerta soou na quarta-feira (24), quando o Tesouro alemão só conseguiu vender 65% dos títulos no valor de 6 bilhões oferecidos ao mercado”, e, assim mesmo, com o Banco Central alemão comprando parte desse total.

A crise do euro começou na sua periferia, atingindo países de menor importância econômica - Irlanda, Portugal e Grécia -, e agora atinge economias maiores, como Espanha e Itália, já mirando a França como a nova bola da vez. Resta só a Alemanha, que ainda pensa que está imune à crise e que parece desconhecer que sua economia depende fundamentalmente da saúde desses países, que já se encontram no caminho da recessão. Isso irá afetar suas exportações, que dependem em boa medida da zona do euro. Além disso, seu sistema financeiro está entrelaçado com todos os países da zona que estão com situação bancária delicada.

As agências de classificação de risco, mais uma vez, acordaram tarde para a situação calamitosa em que se encontra a zona do euro, e agora começaram a rebaixar notas de classificação de risco de governos e bancos em profusão.

O que se pode esperar diante dessa realidade, que pode contaminar a economia americana, que tem fortes ligações comerciais e financeiras com a zona?

Creio que tem boa probabilidade de ocorrer uma recidiva da crise de 2007/2008, talvez de forma mais intensa atingindo os países emergentes. Essa avaliação ainda é pouco compartilhada pelas análises, que ainda procuram ver a possibilidade de solução para a zona do euro sem reflexos danosos à economia americana.

Se minha avaliação for correta, pode-se esperar um mergulho mais profundo das economias europeia e americana, com redução expressiva do consumo de suas populações devido ao desemprego em níveis mais elevados do que o atual, com aprofundamento da crise social por vários anos.

As economias dos países emergentes, embora sejam afetadas pelos canais comercial e financeiro, reduzindo exportações e secando o mercado de crédito, terão de continuar andando cada vez mais pelas suas próprias pernas, apoiadas no mercado interno. Essa possibilidade existe, pois ainda boa parte da população desses países participa pouco do mercado de consumo, seja por não acessá-lo ou pelo nível reduzido de consumo devido à insuficiência de renda. Assim, políticas públicas de redistribuição de renda e de redução dos custos de alimentação, habitação e transporte são fundamentais para ampliar a renda disponível para consumo.

Vantagens. No caso do Brasil, há vantagens macroeconômicas para o enfrentamento dessa recidiva. Temos posição fiscal sólida, reservas internacionais de US$ 350 bilhões, depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central (BC) superiores a R$ 400 bilhões, garantindo bom nível de liquidez. Além disso, o juro básico elevado tem espaço para ser reduzido, diminuindo despesas do governo federal, e taxas de juros do sistema financeiro elevadas podem ser reduzidas por ação do governo, e não faltam instrumentos para isso.

Preocupado com a desaceleração da economia em meio à crise financeira internacional, o governo anunciou na quinta-feira um pacote de medidas para estimular os empréstimos dos bancos para a população e, consequentemente, aumentar o consumo das famílias.

O governo decidiu reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre os produtos da linha branca, como geladeiras, fogões e máquinas de lavar. Além disso, a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para pessoas físicas foi reduzida de 3% para 2,5% ao ano. Com isso, se reverte parcialmente o aumento do tributo efetuado em abril. Naquele momento, a preocupação maior era com o crescimento da inflação - que ficou em segundo plano com a piora da turbulência externa.

Nas últimas semanas, a presidente Dilma Rousseff tem pedido aos brasileiros que continuem consumindo e que as empresas mantenham sua produção. Na área do crédito, o Banco Central já reverteu parte das medidas macroprudenciais de aperto do crédito que foram adotadas no início do ano.

No dia 25, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reuniu-se com empresários e representantes de entidades ligadas à indústria e ao varejo e prometeu, por exemplo, anunciar medidas de estímulo ao setor têxtil. “Nós vamos tomar medidas para continuar estimulando o consumo, para que ele volte ao patamar adequado para manter a economia crescendo entre 4% e 4,5%”, disse o ministro.

Mas parece que não está ocorrendo preocupação semelhante por parte do Banco Central, apesar de colocar em suas atas e relatórios, com destaque, os reflexos da crise europeia como atenuantes do processo inflacionário e causadores da perda do ritmo de crescimento.

A parcimônia com que vem reduzindo a taxa básica de juros é preocupante. Continuamos com a maior taxa do mundo, e isso desestimula os investimentos, impede o equilíbrio fiscal e artificializa o câmbio, reduzindo a competitividade de nossas empresas. É hora de mudar isso para completar o arsenal de defesa do País face à crise, que se aprofunda.

AMIR KHAIR, mestre em Finanças Públicas, consultor.

economia · crescimento, inflação, juros
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