Socialismo de Chávez nivela por baixo
No mundo de Hugo Chávez, a luta contra o capitalismo continua intensa.
“Tremei burguesia, nós iremos atrás de vocês”, bradou o coronel, depois de tirar das corretoras e casas de câmbio privadas, e passar ao Banco Central, a tarefa de administrar o mercado paralelo de dólares na Venezuela. No mundo real, o dólar saltou para oito bolívares no paralelo - cerca do dobro das taxas oficiais - e o mercado está parado enquanto o BC tenta se organizar para sua nova atribuição de gerir o câmbio negro, tarefa inexequível.
Como as empresas recorrem a esse mercado para obter divisas, pois no oficial o dólar anda escasso, a cambaleante economia do país entrou em parafuso. Já existia um forte desabastecimento de produtos alimentícios, e a piora é inevitável, pois a Venezuela importa 70% do que consome. A quatro meses das eleições legislativas de setembro, a popularidade do caudilho caiu abaixo de 50% (44,4%). A população critica fortemente a gestão - melhor dizer nacionalização - do setor alimentício pelo governo. O slogan chavista “Tanto Estado quanto possível, tanto mercado quanto inevitável” só podia resultar em desabastecimento, pois é notória a falta de eficiência das estatais, e não só as venezuelanas.
- Já votei em Chávez, hoje não voto mais. Como é possível eu demorar tanto para conseguir comprar farinha de milho para preparar as minhas arepas? - indagou o aposentado Benjamin Cornejo Ugarte, de 75 anos, ouvido semana passada pelo GLOBO na fila de um supermercado no centro de Caracas. A arepa, uma espécie de panqueca recheada, é o alimento mais popular na mesa venezuelana. Um dos grandes problemas de Chávez é que a falta de produtos nas prateleiras do país e a carestia (a inflação é a mais alta da América Latina, 5,2% em abril) atingem mais fortemente o eleitorado chavista - as classes D (38% da população) e E (41%), além da classe média. Os 3% no topo da pirâmide social são, por óbvio, menos afetados.
Os áureos tempos do petróleo ao redor dos US$100 o barril passaram. Enquanto durou a bonança, Chávez construiu seu “socialismo bolivariano do século XXI” com um grande programa assistencialista que assegurou seu prestígio junto às classes menos favorecidas. E passou a exportar o modelo, mergulhado em barris de petróleo, para países que entraram em sua órbita de influência, como Bolívia, Equador e Nicarágua.
Mas os bons tempos acabaram e o “socialismo bolivariano” deu com os burros n”água, só tendo agora a oferecer prateleiras vazias, cortes de luz e a perspectiva de a Venezuela ser o único país latino-americano cuja economia não crescerá este ano (ela encolheu 3,3% em 2009). Ainda assim, não se pode minimizar a capacidade já amplamente demonstrada por Chávez de vencer eleições. Ao menos, este ano, a oposição não repetirá o grande erro de 2005, quando boicotou o pleito e acabou sem representação legislativa, entregando a faca e o queijo ao coronel. O problema é que a oposição venezuelana ainda não conseguiu produzir um líder capaz de enfrentar e derrotar o caudilho. Caudilho se enreda no modelo bolivariano às portas das eleições.





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