Sobre                        Contato                        Arquivo

Subsídio do BNDES precisa ser explicitado

Editorial, O Globo, 11/08/10

Frustração na criação da ‘Supertele’ serve de alerta sobre essas operações

Talvez pelo clima eleitoral, entidades empresariais representativas de segmentos da indústria divulgaram nota sob o título “Em defesa do investimento”, para firmar posição ao lado do BNDES. Não por acaso, trata-se de clientela tradicional do banco público (indústria química, siderurgia, máquinas em geral etc.). Como as críticas à capitalização da instituição financeira feita pela via do endividamento passaram a constar do discurso de candidatos da oposição, estas entidades foram à luta no campo da batalha política. Para desavisados que leram o manifesto, a injeção de R$180 bilhões no banco, captados pelo governo por meio do lançamento de títulos da dívida pública, foi magistral operação feita na hora certa, a fim de evitar que os efeitos da crise mundial deprimissem ainda mais a já anêmica taxa de investimento. Logo, deduzem, os críticos conspiram contra a elevação de patamar dos índices de crescimento.

Engano. Nem tampouco fazer reparos à forma como foi realizada a capitalização do BNDES significa rejeitar o apoio estatal a este ou àquele setor. O x da questão é como tudo foi realizado, pela via do endividamento em condições que embutem nos créditos concedidos pelo banco pesados subsídios a serem arcados pelo contribuinte. Afinal, o Tesouro paga, pelo dinheiro que capta, juros Selic (hoje, 10,75%), e o BNDES empresta a 6%.

O próprio manifesto dos empresários admite o subsídio e reconhece — outro aspecto negativo da operação — a necessidade de a sociedade ser informada dos detalhes da transferência de bilhões ao banco, feita de uma maneira que infla a dívida bruta e mantém sem acréscimos o endividamento líquido, numa espécie de maquiagem contábil.

O uso nada transparente de dinheiro público para sustentar empresas cobrando-lhes juros subsidiados já ocorreu no passado (governo Geisel), com resultados conhecidos: empresas sem competitividade e, no final, perdas para a Viúva.

Também como naquela época, persegue-se a criação de empresas “campeãs nacionais”. Mas a qual preço? A operação fortemente apoiada pelo Executivo de constituição de uma “campeã nacional” nas telecomunicações (a Oi, a “Supertele”) já não deu tão certo: subestimaramse passivos, e o jeito foi quebrar o dogma do grupo puro-sangue brasileiro e permitir que a Portugal Telecom comprasse parte da companhia. São contingências de um mercado em grande transformação. Mas o fato é que os bilhões colocados na empresa em dinheiro do contribuinte (via subsídio embutido em crédito do BNDES e por meio de fundos de pensão de estatal, os quais, quando têm problemas de caixa, se socorrem de forma indireta no Tesouro) não deram o resultado que os estrategistas do Estado forte buscavam. Como houve desvalorização patrimonial, existe pelo menos um prejuízo contábil.

A história econômica brasileira é repleta de passagens em que a “mão visível” do Estado se move guiada por parâmetros irracionais, na escolha de bem-aventurados empresários, os tais “campeões”, aqueles que passam a ter trânsito livre nos gabinetes do poder e nos cofres do Erário. O problema é que sempre o contribuinte paga a conta no final desses projetos em que o burocrata decide o que é melhor para a sociedade. Vale a imagem surrada: não há almoço de graça, e a conta costuma ser espetada na sociedade.

gestão · bndes, estatização, subsídio
Enviar   Imprimir  

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Que onda!

Guilherme Fiúza viu na onda Luíza o fim da opinião pública tal como conhecemos. Pode ser. E daí?

Pesos e medidas

Nelson Breve, que hoje dirige a Empresa Brasileira de Comunicação, já foi mais exigente em matéria de critérios jornalísticos. Em 2006 ele se incomodava com a falta de checagem de informações.

Verniz fino

Em São Paulo, homenageada por Gilberto Kassab, Dilma Rousseff posou de boa moça. Horas depois, em Porto Alegre, deu declarações incompatíveis com a dignidade do seu cargo.

Flor do pântano

A participação secundária de Dilma num escândalo de corrupção no governo do Rio Grande do Sul mostra o mesmo padrão de conduta que ela segue hoje.

Louco amor

"Intelectual gosta, sim, de caipira. Intelectual não gosta é de ladrão!" O desabafo de FHC sobre Quércia, lembrado por Jorge Bastos Moreno, me fez pensar no amor dos intelectuais pelo operário Lula.

Rio alto astral

Os meios de comunicação do Rio, começando pela Globo, jogam para cima a cidade deles. Em São Paulo não há nada parecido. Por que será?

Dedões a mil

Parece que Ruy Castro nunca digitou nem prestou atenção um garoto digitando num celular. Achei um clip para ele ver.

Moscou dançou. Te cuida, Pequim

Jintao está certo sobre o perigo da cultura de massas ocidental, em todo caso. Vacilou, ele pode acabar na ala VIP da platéia de um concerto de rock na Praça da Paz Celestial, como seu colega Vladimir Putin no concerto de Paul MacCartney na Praça Vermelha.

A novela dos caças

Aldo Pereira sugere uma solução mista para a escolha do caça da Força Aérea Brasileira: uma esquadrilha sueca, outra americana. E para a França, nada? Pobre Sarkozy...

De onde vem o novo

Eric Hobsbawn explica por que a velha esquerda ficou de fora dos protestos que varreram o mundo em 2011. O novo motor das revoluções é a classe média, principalmente os jovens estudantes.

À nossa!

A indústria do vinho é uma das boas coisas da globalização. Mais e melhores vinhos, relativamente mais baratos, para nós, plebeus deste planeta.

Bolsa turismo

O real artificialmente valorizado é um verdadeiro programa de transferência de renda - do Brasil para Miami. The New York Times publica flagrantes dessa invasão.

Resposta aos difamadores

Verônica Serra divulgou a nota que transcrevo a seguir, a propósito do mais recente dossiê - este em forma de livro - fabricado contra o PSDB.

De olho na biruta

Beto Richa glosa o mantra do PSDB: "Esses anos todos: comunicação, comunicação é o nosso problema. E não conseguem achar o caminho." Por que será?
Mais posts