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Território liberado para a campanha eleitoral

O Globo, 27/06/10

Para comunidades que receberam UPPs, preocupação agora é com uma possível avalanche de oportunistas

Natanael Damasceno

Quase dois anos depois da implantação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio, os eleitores que votam nessas favelas se preparam para a primeira eleição sem restrições impostas pelo tráfico ou por quadrilhas de milicianos. Hoje, apenas dez das mais de mil favelas do Rio contam com o novo modelo de policiamento. Mas, de acordo com uma estimativa do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), concentram cerca de cem mil votos. Apesar de se verem livres de ameaças e intimidações, esses eleitores agora precisam descobrir como se relacionar com lideranças políticas das próprias comunidades.

Além disso, numa situação inversa à que viviam, temem uma enxurrada de políticos aproveitadores.

— Antes, para entrar na comunidade, quem era de fora tinha problemas mesmo. Tinha que negociar, pedir que as escolas ou as associações de moradores intermediassem. E se o tráfico não quisesse, não entrava. Hoje está mais fácil entrar aqui do que em um condomínio fechado — diz Luiz Bezerra do Nascimento, presidente da Associação de Moradores do Morro do Cantagalo, em Copacabana.

Tenente do Bope: “Este ano, as eleições serão livres” Para o líder comunitário, o receio é que esse cenário traga outro tipo de problema: — Todos os dias, três ou quatro políticos têm me procurado em busca de apoio. Fora os que nem passam mais por aqui. Sinal de que teremos uma avalanche de aproveitadores.

Gente que só vem aqui nas eleições.

Nosso receio é de que a comunidade seja explorada.

Segundo algumas lideranças comunitárias, essa “invasão” pode ser facilitada pelo fato de os policiais militares que ocuparam as comunidades terem evitado assumir a função de mediadores que antes era da milícia e do tráfico. Por isso, líderes que assumiram esse papel já aparecem como pré-candidatos a cargos proporcionais.

No Jardim Batam, em Realengo, que já foi dominado por uma quadrilha de milicianos, há pelo menos três líderes com pretensões eleitorais. Um é o tenente do Batalhão de Operações Especiais (Bope) Wolney de Paula, que mora no local há 30 anos.

Em 2008, depois da saída dos milicianos, ele organizou o Posto de Policiamento Comunitário (PPC) que precedeu a UPP com outros 12 policiais moradores da comunidade. Onipresente no local, diz que foi incentivado a se candidatar pelo PSB a uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) pelo próprio governador Sérgio Cabral. Mas garante que os tempos de curral eleitoral acabaram.

— Em 2008, tivemos problemas com o resquício da milícia.

Quando a campanha começou, já tínhamos montado o PPC, mas, ainda assim, eles quiseram impor um candidato.

Este ano, as eleições serão livres. Teremos outras duas candidatas além de mim. E não haverá curral eleitoral. O cidadão tem que ser livre para votar em quem quiser.

Juiz do TRE diz que não houve incidentes de coação Tímidos e ressabiados, os moradores desta e de outras favelas confirmam. Boa parte deles se mostra indiferente à proximidade da campanha, que começa oficialmente no dia 5 de julho. Mas alguns já estão de olho no reforço no orçamento.

Maria Rosângela da Silva, de 47 anos, moradora do Batam, ganhou cerca de R$700 por mês trabalhando na distribuição de panfletos ou segurando cartazes em 2008.

Ela espera que as opções aumentem este ano.

No comando das UPPs, a palavra mais usada é garantia.

Embora os comandantes frisem que ainda não há nada determinado com relação à campanha eleitoral, são unânimes em dizer que a circulação de candidatos e cabos eleitorais nas favelas está garantida: — Não haverá problemas para ninguém. Não sei como era no passado, mas este ano garanto que todos terão livre acesso. Aqui ainda existem pequenos focos de venda de drogas, mas os traficantes estão enfraquecidos e desarmados.

Eles não terão mais poder para determinar quem pode circular ou não na comunidade — diz o capitão Leonardo Nogueira, comandante da UPP responsável pelos morros Pavão, Pavãozinho e Cantagalo.

De acordo com o Instituto Pereira Passos, o Rio tinha no início do ano 1.020 comunidades distribuídas em 46,2 milhões de metros quadrados.

Segundo o juiz responsável pela fiscalização da campanha eleitoral no estado, Paulo Cesar Viana, os fiscais do TRE-RJ estarão atentos às práticas ilegais em todas as áreas carentes da cidade. Segundo ele, até o momento, ainda não houve incidentes graves de coação aos fiscais em nenhum das favelas.

Além de retomar áreas dominadas pelo tráfico e pela milícia, as UPPs também garantem a segurança nas regiões próximas aos cartões-postais e aos locais de jogos e provas das Olimpíadas de 2016 e da Copa do Mundo de 2014. O Morro Dona Marta, em Botafogo, foi o primeiro a receber o modelo, em novembro de 2008. De acordo com a Secretaria de Segurança, além das oito unidades instaladas até agora, outras cinco devem ser inauguradas até o fim do ano.

A meta, segundo o governo, é ter 40 UPPs até 2014.

justiça e segurança · estado de direito, upp
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