Um segredo de 15 anos
A geração que desconhece o salto nos preços
Para adolescentes de 15 anos, período anterior ao real deve ter sido de muita confusão com a tal da ‘hiperinflação’
Anna Luiza Santiago e Bruno Rosa

Hiperinflação, escassez de produtos nos supermercados e troca constante de moeda são uma realidade distante do dia a dia dos jovens que, assim como o real, nasceram há 15 anos. As histórias conhecidas por esses adolescentes sobre a economia brasileira antes de 1994 são apenas as contadas pelos pais, avós e livros de História. Mas os debutantes são unânimes em afirmar que o “tal período” deve ter sido muito confuso. Se fosse hoje, ressaltam, as “pessoas seriam revoltadas”.
A primeira coisa que a estudante Cecília Veiga, de 15 anos, pensa é simples: — Devia ser muito confuso para os nossos pais — diz ela sobre a época em que a remarcação de preços diária atormentava os consumidores.
Maria Isabel Tancredo, da mesma idade, conclui: — A gente teria que comprar tudo imediatamente, não daria para esperar porque, na volta, estaria tudo mais caro.
As duas fazem parte do grupo de 15 alunos com 15 anos de idade que cursam o 1oano do Ensino Médio na Escola Parque, na Gávea, Zona Sul do Rio. Os estudantes receberam O GLOBO na última quinta-feira para falar sobre como é ter nascido num tempo em que o Brasil passou a conhecer a estabilidade, dando adeus à inflação galopante — que chegou a atingir 2.737% em 1990 — e à troca de moedas — desde os anos 80, foram cinco.
— A gente ouve falar que a inflação está subindo quando o ônibus aumenta — comenta o estudante João Lima.
Jovem coleciona cédulas de R$ 1 e paga mais de R$ 2
Assim como ele, os colegas sabem que a geração anterior era muito mais antenada nos problemas econômicos.
— A diferença da nossa geração para a deles é que agora ninguém sabe nada de inflação — analisa André Santos.
Porém, André sente saudade de algo que nasceu no mesmo ano: as notas de R$ 1.
Com medo de nunca mais ver as cédulas — o Banco Central parou de produzi-las em março de 2006 e, desde então, as substitui gradativamente pelas moedas —, o jovem resolveu adquirir de amigos as remanescentes para guardar de recordação. Ele paga ágio por cada uma delas: — Compro cada nota por mais de R$ 2. Hoje eu valorizo muito mais as notas de um real.
O consumo é um assunto que a turma sabe discutir muito bem: — Não consigo segurar o dinheiro da mesada. Se gosto, compro — diz Raquel Dimants.
Thor Gutierrez e Gabriela Silva, que passeavam pelo Norte Shopping, concordam em muitos aspectos com os jovens da Escola Parque. Para eles, se os preços subissem todos os dias, uma das soluções seria suspender parte do o consumo.
— Como poderia tomar um sorvete com um preço em um dia e repetir a dose no dia seguinte pagando mais caro? Eu desistiria — diz Gabriela.
Thor acredita que, “se essa hiperinflação existisse hoje”, o mundo seria de pessoas revoltadas.
Mas traça alternativas: — Se os preços aumentassem todo dia, eu iria trazer lanches de casa para meus passeios.
Com R$ 1 na mão e 15 anos depois, dez pãezinhos viraram apenas três
Inflação acumula alta de 244,86% no período de vigência da moeda
Passados 15 anos do lançamento do Plano Real, aquela nota ou moeda de R$ 1 que comprava um coco gelado em dia de praia ou dez pãezinhos para o lanche já não é suficiente.
Se em julho de 1994 o coco era vendido por esse preço, hoje é encontrado a R$ 3 nos quiosques da Barra da Tijuca.
Em uma ida à padaria, só é possível comprar três pãezinhos, a R$ 0,31 cada um, R$ 0,21 a mais do que há 15 anos.
O troco não dá nem para um chiclete.
Apesar das altas de preços, parte dos produtos que compõem a cesta básica acompanhou a inflação acumulada de 244,86% entre julho de 1994 e maio de 2009, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE. Dos 13 itens básicos, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), nove custavam menos de R$ 1 há 15 anos. Desses, o pão francês, o óleo e o açúcar subiram menos que a inflação no período.
Notas de R$ 1, que pararam de ser produzidas, são raras O caso é o mesmo do frango e do iogurte, produtos considerados as vedetes do Plano Real. O quilo da ave tem alta acumulada de 240,42% no Rio.
Embora a variação esteja abaixo da inflação, o preço mais que triplicou: foi de R$ 1,19 para R$ 4,06.
O iogurte também superou a marca de R$ 1. Com esse valor, é possível comprar apenas uma unidade na embalagem de 180 gramas. Mas só se o produto estiver em promoção.
A dona de casa Maria Madalena Pinho, de 57 anos, reclama da alta nos preços: — O jeito é comprar menos.
Resolvi até cortar o iogurte por causa do preço. Aproveito quando está em promoção, a R$ 0,99 (a unidade).
Uma caixa de leite de um litro, que em 1994 custava R$ 0,54, hoje não vale menos de R$ 2,42. A passagem de ônibus no Rio sofreu o mesmo efeito: passou de R$ 0,35 para R$ 2,20.
Nas bancas de jornal, a revista em quadrinhos mais barata sai por R$ 2,90.
Se muita coisa já não custa R$ 1, pelo menos parte da salada está garantida por esse valor. Segundo levantamento da Prefeitura do Rio em feiras e supermercados na primeira quinzena de junho, é possível comprar um molho de agrião (R$ 0,79), alface (R$ 0,81), bertalha (R$ 0,80), chicória (R$ 0,81), couve comum (R$ 0,81) e espinafre (R$ 0,81).
Assim como ficou mais difícil comprar com R$ 1, o uso da cédula também é raro.
Em 2006, o Banco Central pôs fim à sua produção devido à baixa durabilidade, de apenas um ano. (Anna Luiza Santiago)
Frango e iogurte deram lugar a celular e laptop
Mudou padrão de consumo
Lucianne Carneiro
Com o fim da inflação e a estabilidade da moeda, o frango, o iogurte, o refrigerante, as viagens ao exterior e até a dentadura se popularizaram, puxados principalmente pelo consumo de massa.
O frango foi o primeiro ícone da estabilidade, ao custar R$ 1 o quilo. Quinze anos depois, o perfil do consumo mudou. A sofisticação começou com o celular, com a privatização das empresas de telefonia em 1998. Já são mais de 157 milhões de celulares no país, além da consolidação do mercado de televisores LCD, laptops e carros.
Para o professor de Marketing da ESPM-Rio Marcelo Boschi, o frango e o iogurte são “metáforas pobres” das mudanças de consumo no Brasil nesses 15 anos. Ele destaca que, ao lado da abertura comercial promovida no governo Collor, o Plano Real permitiu um forte crescimento da quantidade e da qualidade do consumo do brasileiro, com inclusão de classes mais pobres nesse mercado.
— A grande mudança nesses 15 anos é o consumo de massa. Hoje são 80 milhões de pobres com acesso a consumo — diz o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) Simão Davi Silber.
Ele destaca que o avanço no consumo nesse período é resultado não apenas da estabilidade da moeda, mas também de uma combinação do aumento da renda, da expansão do crédito e dos programas de distribuição de renda do governo.
No Brasil, o preço médio do frango inteiro teve variação de 210,43% entre julho de 1994 e maio de 2009, enquanto o preço do iogurte subiu 113,54%, segundo o IPCA. O índice geral teve alta de 244,86% no mesmo período.
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), o volume de vendas de iogurte aumentou 184,8% entre 1994 e 2008, o de frango teve alta de 167,6% e o de refrigerante, de 251,6%. No mesmo período, o Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos no país) per capita teve alta de 25,3%.
A alta foi mais forte nos primeiros anos e voltou a ser expressiva após 2003, incentivada pelas políticas de distribuição de renda.
Os grandes ícones de consumo hoje são itens como o laptop e o carro, e serviços como o acesso maior à universidade, aponta Renato Meirelles, sóciodiretor da consultoria Data Popular, especializada em consumo popular.
— O consumo sofreu sucessivas frustrações nesse período, associadas a problemas externos, inflação ou problemas no mercado de trabalho — diz o sóciodiretor da LCA Consultores Fernando Sampaio.
