Um segredo de 15 anos
Metas de inflação: dez anos de resistência
Sistema sobreviveu a crises, mas analistas pedem mudanças. Werlang, pai do modelo, sugere votos abertos no Copom
Liana Melo

O sistema de metas de inflação ainda está longe da maioridade no Brasil. Adotado como âncora da política econômica em 1999 — quando, numa guinada do Plano Real, o país fez uma maxidesvalorização e adotou o câmbio flutuante — o sistema, no entanto, acumulou maturidade nestes dez anos. A prova é que a economia resistiu bravamente à crise financeira global.
E não foi a primeira vez que o modelo foi colocado em xeque: ele já tinha enfrentado turbulências em 2001 e 2003. Só que, mesmo sendo apontado como um dos casos de maior sucesso no rol de 22 países que aderiu ao regime de metas, talvez tenha chegado a hora de refiná-lo.
O economista Sérgio Werlang, considerado o pai do sistema de metas de inflação no país e ex-diretor de Assuntos Econômicos do Banco Central (BC), defende a mudança. Por considerar que o regime hoje está suficientemente amadurecido, Werlang acredita que é preciso mais transparência na aplicação do modelo.
— A Inglaterra já publica seu modelo de previsões desde 1999 — sugere o economista, atualmente vice-presidenteexecutivo do Itaú-Unibanco.
Economista defende volta das reuniões mensais
Para dar ainda maior previsibilidade ao mercado, Werlang prega também que as votações disputadas nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) sejam abertas e não secretas. No último encontro do Copom, quando a taxa básica de juros Selic foi reduzida para o patamar inédito de 9,25% ao ano, o placar foi rachado: seis diretores do BC optaram pelo corte de um ponto e dois por apenas 0,75 ponto.
Werlang também defende a urgência de as reuniões do Copom voltarem a ser mensais e não mais a cada 45 dias, como atualmente.
— Num momento de crise, a periodicidade menor é bem mais conveniente.
Apesar de admitir a necessidade de ajustes, o economista dá de ombros para aqueles que insistem em criticar o Copom por desconsiderar o equilíbrio externo na definição da política monetária: — Não faz nenhum sentido adotar o regime de metas com câmbio controlado.
Críticas à parte, o sistema de metas no país está associado a uma redução da inflação: em 1999, o IPCA fechou em 8,94%, e, no ano passado, em 5,90%. Em ambos os casos, a inflação não estourou os limites da meta, o que acabou ocorrendo entre 2001 e 2003. Alguns economistas chamam a atenção que a perseguição por manter a inflação sob controle acabou levando o país a experimentar redução do crescimento econômico.
O BC já sinalizou que confirmará a meta de 4,5% para 2010, repetindo assim, pela sexta vez, o mesmo percentual. Se o economista Antonio Corrêa de Lacerda, da PUC-São Paulo, tivesse direito a voto no Conselho Monetário Nacional (CMN) ele votaria para uma meta de 4,5% também em 2011: — Ainda que considere o modelo de metas válido, ele não deve engessar a política macroeconômica.
É que, na sua opinião, o modelo ainda convive com distorções, como o fato de a meta ser definida com base na inflação cheia, o IPCA. Isto faz com que, toda vez que há um choque de preços de commodities ou no câmbio, se promova um aperto na política monetária.
A segunda anomalia, continua Lacerda, está no horizonte muito curto de foco do sistema de metas de inflação, que é de 12 meses. O ideal, defende, é um prazo de 24 ou 36 meses. A última crítica do economista diz respeito ao critério de captura das expectativas, que é centrado exclusivamente no mercado financeiro:
— Este é um sistema enviesado.
Seria oportuno captar também as expectativas do setor produtivo, da academia e de outros segmentos importantes da sociedade.
Para Paulo Nogueira Batista Júnior, diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional (FMI), o sistema de metas de inflação “não pode ser um estorvo” na política econômica.
No caso do Brasil, ele acha muito difícil que o regime funcione como um entrave, porque o sistema foi pensando com bastante flexibilidade: — As metas de inflação no país operam com um intervalo relativamente grande, uma amplitude de dois pontos percentuais para cima e para baixo.
A Nova Zelândia foi o primeiro país a adotar o regime de metas, em 1990, e serviu de modelo para outros países mundo afora
‘A memória da inflação não foi apagada’
Uma década de convivência com o regime de metas de inflação ainda não foi suficiente para apagar a memória inflacionária. A afirmação é do diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Mário Mesquita, admitindo que será necessário “mais um par de anos de inflação baixa e estável para que tais práticas caiam em desuso”.
Liana Melo
O GLOBO: Depois de uma década usando o regime de metas de inflação, o senhor considera que a memória da inflação foi totalmente apagada?
MÁRIO MESQUITA: Creio que a memória inflacionária certamente diminuiu. A nova geração de brasileiros, nascida desde 1994, não viveu o período de hiperinflação, o que ajuda a sociedade a superar estas incômodas lembranças.
Mas a memória inflacionária não foi apagada por completo, em que pese o sucesso do regime de metas para a inflação. A evidência é a persistência de práticas de indexação na economia, como os contratos de aluguel e dos preços de alguns serviços. Aparentemente, serão necessários mais alguns anos de inflação baixa e estável para que tais práticas caiam em desuso.
O regime já está maduro o suficiente ou ainda precisa de aperfeiçoamentos?
MESQUITA: As políticas públicas sempre podem ser aperfeiçoadas. Dito isso, é importante ressaltar que o regime, em seu formato atual, tem sido bem sucedido mesmo em condições nem sempre favoráveis. O modelo atual enfrentou a crise de energia, o estouro da bolha da internet, o choque de commodities e o pânico financeiro de 2008. O desempenho da economia na última década sugere que o desenho básico do regime de metas para a inflação se mostrou adequado.
Eu veria com muita cautela sugestões de mudança que fragilizassem o compromisso com o controle da inflação ou reduzissem a transparência do regime.
Como faço parte de um colegiado que tem a incumbência de cumprir as metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), não me cabe tecer comentários específicos sobre alterações no arcabouço do regime.
O economista Sérgio Werlang, considerado o pai do regime de metas, defende a volta das reuniões mensais do Copom. O que o senhor acha disso?
MESQUITA: Não acho que seja necessário retornar à frequência mensal de reuniões. O Copom leva em conta a defasagem dos efeitos da política monetária sobre a economia, inclusive no que se refere ao espaço entre reuniões. Não me parece que os resultados da política monetária seriam significativamente diferentes caso as reuniões fossem mensais. Concordo que a transparência é elemento central do regime de metas, e temos avançado nesta linha.
