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Uma lição para a vida

Roberto DaMatta, O Globo, 14/12/11

Na minha primeiríssima e inesquecível — quem não se lembra de toda primeira e última vez? — estada nos Estados Unidos, em 1963, eu, um humilde e inseguro aprendiz de antropologia social numa portentosa Harvard, fiquei tão chocado quanto deslumbrado quando ouvia meninos e meninas com vinte poucos anos de idade “discordarem” das ideias que saíam como cascata da obra dos grandes gênios das ciências sociais. Especialmente dos seus inventores, aqueles orgulhosos, persistentes, obsessivos e desafiadores Durkheim, Marx, Tocqueville, Frazer, Hocart, Mauss, Tylor, Maine, Weber… que, em vez de policiar e decretar sobre o mundo, decidiram fazer o mais difícil: compreendê-lo em seus próprios termos. Esse modo mais complexo e profundo de transformá-lo.

Eu ficava apatetado e cheio de culpa quando meu colegas, uns merdinhas de olhos azuis claros como a inocência das louras que clamavam terem sido estupradas por negros, diziam em alto e bom som: “Eu descordo de Mauss!”; “Durkheim estava errado!”; “Preocupa-me a posição de Weber!”; “Marx perdeu o bonde!”; e assim por diante.

O modo tranquilo com que meus colegas, debaixo do olhar aprovador dos nossos professores, discordavam desses pioneiros me perturbava, pois quanto mais originais eram suas teorias, mais eles eram criticados. As opiniões não eram meras apreciações formais ou elogiosas de um iniciante ajoelhado diante de um mestre, mas uma assertiva sempre negativa e ostensivamente contrária ao que era discutido, que, sendo boa ou profundamente enganada, promovia a discussão das ideias gerais contidas no livro em debate. Deste modo, todos (menos eu) faziam questão de bater de frente e essa atitude que para mim, surgia como hipercrítica, e até mesmo agressiva, passava por um crivo que eu não havia aprendido e que certamente não existia no Brasil. O filtro de um ponto de vista individual, e não a perspectiva pessoal que tende a atenuar ou arrefecer o debate e a apreciação do outro.

Entendi que estava no universo dos “eus”. De fato, o que eu mais ouvida era o pronome pessoal “I” (eu). Entendi porque em inglês a primeira pessoa do singular, o “eu”, é escrito com letra maiúscula…

Nesse contexto, passei por uma experiência decisiva.

Num seminário sobre a história da antropologia, dirigido pela professora Cora Du Bois, uma pioneira, ao lado de Margaret Mead e Ruth Bennedict na prática da antropologia social, uma mulher que havia feito trabalho de campo na Ilha de Alor, na Indonésia, quando nós, no Brasil achávamos um problema ir a Niterói e impossível conhecer Manaus, eu apresentei um desses autores clássicos. Não me lembro mais quem era, mas não me esqueci da luz que essa experiência lançou na diferença entre o meu modo de aprender e o dos meus colegas harvardianos. Pois quando terminei o meu resumo recebi da professora uma pergunta surpreendente.

— Sua apresentação está mais do que correta! — disse Cora Du Bois — Mas o que eu quero mesmo é saber o que você pensa sobre as teorias que acabou de apresentar.

A ênfase no “você” que individualizava e buscava a minha opinião íntima — o sentimento de um “eu” que, mal sabia, era autônomo e tomava partido — deixou-me embasbacado. Eu jamais havia pensado em me distanciar e me individualizar diante do autor estudado. Pelo contrário, eu havia feito o exato oposto e me identificava com ele preparando-me para defendê-lo a todo custo. Jamais havia passado pela minha cabeça que era possível e desejável formar uma opinião pessoal sobre ele e, eis o espanto, que essa opinião, mesmo sendo a de um jovem iniciante, contava, e a experiente e sábia professora fazia questão de ouvi-la.

No Brasil eu era bamba em discutir ideias, projetos, leis e sistemas políticos sem ser obrigado a tomar posição em relação ao que estava em pauta. Aliás, o que eu aprendia era jamais criticar certos autores e, pela mesma moeda, elogiar outros. Mas, entre o lado direito e o esquerdo, o alto e o baixo, o bom e o ruim, não havia nenhum espaço para dizer o que eu realmente pensava de cada um deles.

Meu aprendizado não era individual. Era pessoal e grupal no sentido de que cada grupo ou turma tinha seus padrinhos e heróis, bem como seus inimigos e bandidos, como figuras para serem idolatradas e admiradas, ao ponto de jamais serem apreciadas de modo individualizado. Sabíamos definir socialismo e liberalismo, mas não aprendíamos a tomar uma posição junto a cada um desses sistemas — e a exprimir o que eles diziam para cada um de nós.

Éramos, como ocorre em tantas outras esferas da vida social brasileira (e, imagino, latino-americana), contra ou a favor. Não líamos Marx, éramos marxistas! Ou reacionários, porque simpatizávamos com Durkheim, que jamais falou em luta de classes. Mas, entre um e outro, jamais fazíamos como aqueles meninos de Harvard que tomavam um partido individual relativamente a cada autor e assim mediam suas aversões e simpatias às suas ideias, métodos e teorias. E isso, parece, faz diferença. A diferença entre a repetição e o modismo, e a verdadeira criatividade.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

ideias · ciências sociais, criatividade, individualismo
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