Uma “pax mafiosa” no México
A violência do crime organizado ligado às drogas, uma violência que vem devastando o país, corrompe e enfraquece o sistema político mexicano
A recente morte de Ignacio Coronel Villarreal, um dos líderes do cartel de drogas de Sinaloa, pelas forças especiais mexicanas é apenas mais uma de alta notoriedade em uma campanha cada vez mais violenta. Será que a estratégia de matar os líderes do tráfico no México é realmente viável?
O governo mexicano tem várias possibilidades para acabar com a violência do crime organizado ligado às drogas, uma violência que vem devastando o país, além de corromper e enfraquecer seu sistema político. Apenas duas delas são aconselháveis, mas não são fáceis de aplicar e nem seu êxito é garantido.
Há três anos, o presidente do México, Felipe Calderón, decidiu mobilizar as Forças Armadas nos vários Estados onde os principais cartéis de drogas estavam estabelecidos. Calderón tenta conter a capacidade de violência desses grupos e diminuir seus recursos econômicos, mas ainda não conseguiu encontrar um plano que seja, ao mesmo tempo, bem-sucedido e reduza o número de mortes.
Os dois principais cartéis de drogas do país, os de Sinaloa e Tamaulipas, chegaram a ser rivais no passado, mas agora uniram forças para combater seus ex-aliados - as organizações Vicente Carrillo Fuentes, Beltrán-Leyva e Zetas -, que surgiram durante o longo período em que o México era dominado por apenas um partido, o Partido Revolucionário Institucional (PRI).
Criado em 1929, o PRI perdeu a presidência do país pela primeira vez em 2000. Desde então, duas transições paralelas estão em andamento: uma, em direção à democracia e outra, no campo do tráfico de drogas, em direção a uma estrutura paramilitar-mafiosa.
Foi a organização Tamaulipas que iniciou essa transição paramilitar, no fim dos anos 90. Com presença regional suficiente para corromper políticos locais, a organização logo expandiu seu território e ganhou controle de posições-chave em instituições municipais e de segurança pública. Esse processo foi acompanhado pelo aumento da violência armada contra a polícia, militares e jornalistas, assim como por incursões na política e pela diversificação da renda com atividades criminosas, por meio de sequestros, extorsão, pirataria e tráfico de pessoas.
Paradoxalmente, a perda do monopólio do PRI sobre o poder político e a abertura da política mexicana facilitou e até acelerou esse processo. Partidos sem pactos, consensos ou visões compartilhadas foram colocados como corresponsáveis em questões de segurança nacional, o que aumentou a influência dos cartéis de drogas.
Nenhuma das áreas onde se produz ou se contrabandeia drogas ilícitas, assim como os locais por onde passam as rotas para seu transporte ilegal aos Estados Unidos estão isoladas da corrupção ligada ao tráfico. De fato, a corrupção, incluindo a “proteção” dos traficantes, está distribuída de forma correspondente ao controle partidário em cada região. A histórica subordinação dos criminosos ao poder político está sendo desfeita.
Durante as eleições deste ano em Tamaulipas, um candidato a governador e outro a prefeito foram assassinados, presumivelmente pelo “crime organizado”. Outros receberam ameaças de morte. Em Chihuahua, candidatos ao governo disseram ter recebido ameaças e pediram proteção policial. É o Estado com o maior número de assassinatos no país e os poderosos cartéis que estavam unidos agora estão em confronto aberto. Em Tamaulipas, os cartéis Golfo e Zetas, ex-aliados, lutam até a morte.
O Partido Revolucionário Institucional manteve o poder nesses Estados: os eleitores não o fez pagar por sua parte de responsabilidade na violência. Mas a abstenção eleitoral chegou a 60%.
A classe política mexicana tem pelo menos seis opções para lutar contra os traficantes de drogas:
- Não fazer absolutamente nada e deixar que os cartéis de droga imponham sua lei;
- Tornar a política antidrogas uma questão exclusiva do governo federal;
- Formar aliança estratégica com os traficantes, na esperança, de ter um “acordo de cavalheiros”, no qual se comprometam a reduzir o nível de violência e a evitar confrontos com a polícia e os militares. Isso significa conceder-lhes reconhecimento político formal e consentir em ampliar a “pax mafiosa” que já existe em muitas jurisdições locais;
- Apoiar a continuação parcial da estratégia de Calderón, incluindo a cooperação acertada com os Estados Unidos para combater o crime organizado transnacional. O financiamento pelos EUA terá de continuar e provavelmente ser aumentado, para combater o tráfico de drogas ilegais, o crime organizado e a violência relacionada a eles;
- Formar uma parceria entre os partidos políticos e o governo federal para elaborar uma política de segurança nacional, consolidar as instituições com a imposição da lei e impor a sua autoridade em todo o território nacional contra todos os grupos armados ilegais;
- Alterar radicalmente a política de drogas do México, legalizando-as e assumindo as consequências na Organização das Nações Unidas (ONU) e as relações com os EUA.
Apesar da violência cada vez maior, nada indica que a classe política do México esteja preparada para sequer avaliar a sexta opção. Atualmente, observam-se versões das outras opções. Conseguir levar adiante a quarta opção, juntamente com medidas econômicas e sociais voltadas à criação de empregos e à melhora do padrão de vida da população, pelo menos, possibilitaria enfraquecer, conter e controlar as organizações de tráfico de drogas no México, fortalecendo, portanto, a governabilidade e ordem civil.
Luis Astorga é pesquisador do Instituto de Pesquisa Social da Universidade Nacional do México. Copyright: Project Syndicate, 2010.
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