Uma renda tão fina
O governo iraniano executará Sakineh? Só a um criminoso sanguinário ou a um louco ocorreria apedrejar uma pessoa até a morte. Linchamentos são manifestações da fera ancestral que escapa à domesticação que o mundo civilizado impõe. Uma criança é repreendida duramente se joga uma pedra em um cachorro. Aprende cedo que esse ato revela crueldade. Há uma herança da civilização a ser preservada.
A interminável controvérsia sobre o relativismo cultural absolve o costume de mutilar o sexo das mulheres, desfigurá-las, embrulhá-las, em vida, dos pés à cabeça em mortalhas. Um crime repugnante é explicado como escolha de sociedade, uma entre outras, nem melhor nem pior, apenas diferente. A indignação seria fruto da cultura ocidental que se pretende melhor que as outras.
Na vida das iranianas, a teoria do relativismo cultural se encarna em uma sequência de brutalidades que desembocam — quando o corpo se revolta — no apedrejamento. Essa prática tem suas raízes no deserto da Arábia do século VII. Explicá-la ao mundo globalizado do século XXI com o argumento cultural é acintoso.
Na história brasileira, já houve antropófagos. Substituímos a antropofagia real pela metafórica. Comemos de todas as culturas e mudamos o menu. Se as culturas fossem intocáveis estaríamos até hoje devorando os descendentes do bispo Sardinha.
O Presidente Lula disse que não se deve “avacalhar” as leis de outros países. Durante o regime militar a comunidade internacional interveio condenando a prática da tortura que se intitulava interrogatório. Essa “avacalhação” salvou vidas e apressou o fim da ditadura no Brasil.
Regimes fundamentalistas torturam as mulheres. Sua liberdade sexual, chamada de pecado, vira crime político. Atacadas em sua integridade física, moralmente coagidas, politicamente condenadas à morte, nada mais justo que se beneficiassem do direito de asilo.
A maneira canhestra como o asilo foi oferecido pelo presidente Lula não convenceu o companheiro Ahmadinejad. Ainda que com infinitas cautelas, o governo insistiu. Essa insistência poderá ser decisiva para salvar Sakineh. O que está em jogo aos olhos de uma opinião pública indignada não é só o regime iraniano. É também a atitude do governo brasileiro. Que lugar tem a defesa de direitos humanos neste governo em que alguns de seus membros mais influentes sofreram na carne a violência da repressão? Lavarão as mãos?
Aí reside a questão de fundo que o caso Sakineh ilustra: a dignidade das mulheres e o valor de uma vida humana, cuja defesa é jogada na conta da ingenuidade ou bom-mocismo versus realpolitik. O que é real, o que é política? Que importância tem uma mulher lapidada frente à razão de Estado? Prevalecendo esse suposto “realismo” nos alinharíamos com a barbárie.
No fim do século passado, em Viena, a Conferencia Mundial sobre Direitos Humanos da ONU, após ásperas controvérsias, concluiu: direitos das mulheres são direitos humanos. Quanta generosidade! O pleonasmo ilustra a resistência a aceitá-las como parte da humanidade.
Era um tempo de esperanças, quando conferências globais ensaiavam uma gestão planetária capaz de traduzir o então surpreendente fenômeno da globalização em consensos — difíceis mas essenciais — negociando um ponto de vista da humanidade.
Os direitos humanos, valores aceiestos e respeitados por todos, acima das diferenças culturais, definiam nossa comum humanidade, tecida por delicados acordos, como os fios de uma renda, frágeis, mas que sustentam um tecido. Interrompida essa construção pela brutalidade do 11 de setembro e a truculenta resposta americana, com seu cortejo de Abu Ghraibs e Guantánamos, mergulhamos no simplista e regressivo choque de civilizações.
Há maneiras de enfrentá-lo: uma, estéril e perigosa, é silenciar sobre o que para nós é aberrante, chamando a isso tolerância. Outra, fértil, é abrir um campo argumentativo, onde chamamos de crime o que para nós é criminoso e lutamos para que seja internacionalmente condenado como tal.
Esses tempos de agonia, esperando o desfecho de tamanha covardia, reavivam o medo inscrito no destino de quem é mulher e, insone, se coloca na pele daquela que não sabe se viverá. Dura lição: a civilização é essa renda fina que com facilidade se rompe e vira pano de chão.
A cultura iraniana é também Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz, que desafia o obscurantismo. Quem, mundo afora, se insurge contra a execução de Sakineh sabe que, com ela, quem estaria sendo apedrejada é a própria Civilização. Uma renda tão fina…
ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA é escritora. E-mail: rosiska.darcy@uol.com.br.





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