Sobre                        Contato                        Arquivo

Vamos pagar caro!

David Zylbersztajn, O Globo, 09/10/11

O Congresso Nacional discute freneticamente a questão da redistribuição das atuais participações governamentais do setor de petróleo, ou seja, royalties e participação especial. Para esclarecimento do leitor, os royalties incidem sobre o valor da produção bruta de petróleo (normalmente 10%) e, conforme os termos da Lei 9.678, “a participação especial sobre a receita líquida dos campos produtores, nos casos de grande volume de produção, ou de grande rentabilidade” (ou seja, as empresas dividem os lucros extraordinários com o governo, numa taxação cujas alíquotas podem atingir até 40%, conforme o volume de produção).

Para entender um pouco a origem do imbróglio: o governo passado enviou ao Congresso proposta de mudança do modelo regulatório da exploração de óleo e gás no Brasil.

Em vez do modelo de concessão, as futuras licitações do pré-sal e de áreas consideradas estratégicas serão submetidas ao regime de partilha da produção, onde o governo torna-se proprietário de parte do óleo extraído. Mas não os aborrecerei com questões técnicas relativas aos modelos.

Pelo novo modelo haverá uma nova forma de distribuição das participações governamentais, onde a maior concentração da riqueza petrolífera é apropriada pelo Governo federal. Em outros termos, sem entrar no mérito da proposta, trata-se de discutir o futuro do setor de óleo e gás, o que é legítimo e de acordo com os melhores princípios federativos e democráticos.

No entanto, nossos deputados ignoraram completamente o debate sobre a essência do novo modelo. Mas engalfinham-se, como famintos, para dividir o butim resultante das receitas do petróleo. Foi sob este nobre espírito “republicano” que, espertamente, um deputado do Rio Grande do Sul, Ibsen Pinheiro, apresentou emenda ao projeto, alterando a distribuição das participações governamentais também dos contratos das concessões vigentes, ou seja, áreas que já foram licitadas, estão produzindo e pagando conforme as regras do edital de licitação e do estamento legal vigente no momento de sua realização.

O que o deputado Ibsen propõe representa a quebra de regras contratuais previamente estabelecidas, numa clara afronta aos princípios da anterioridade, da segurança jurídica das concessões e uma grave ameaça ao pacto federativo.

Podemos imaginar que, se for prevalecer a regra de muitos contra poucos, amanhã serão questionados, por exemplo, os pagamento de royalties ao Paraná por conta da exploração de Itaipu ou partir contra o Pará e rapinar o que o estado recebe da extração do minério de Carajás.

Uma outra alternativa “criativa” (aparentemente abandonada) foi propor uma compensação aos estados não produtores com a cobrança de alíquotas maiores da Petrobras e das outras empresas já atuando em áreas concedidas. Mais uma vez, a quebra das regras da licitação e dos contratos de concessão.

Quando promovemos as primeiras rodadas de licitações para a exploração de blocos de petróleo, um de nossos maiores desafios foi convencer os investidores nacionais e estrangeiros de que o Brasil estava consolidando uma cultura de respeito a regras e contratos. Ao longo destes mais de dez anos esta estabilidade no setor petrolífero nacional serviu como um dos atestados de maturidade de nossa sociedade e a entrada do Brasil no “clube” dos países sérios e confiáveis.

Resumindo, o que se discute no Congresso é alterar o passado, rasgando compromissos estabelecidos em leis e contratos. Para estes deputados, isto terá o efeito da euforia da droga, que após um primeiro momento de êxtase leva seu usuário ao fundo do poço.

Esta gente está colocando em risco a reputação de nosso país e o equilíbrio federativo. Não serão apenas os estados produtores que serão esbulhados em seus direitos.

Com o tempo, nós, brasileiros, pagaremos muito caro por esta irresponsabilidade e oportunismo. Não é possível aceitar que se ressuscite a máxima de que “no Brasil, mais difícil do que prever o futuro é prever o passado”.

DAVID ZYLBERSZTAJN foi presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

finanças públicas · federação, petróleo, royalties
Enviar   Imprimir   Fonte

Corrupção de Sarney a Lula

image O ebook Corrupção de Sarney a Lula pode ser baixado gratuitamente em três formatos: PDF (para imprimir), EPUB (para iPad) e MOBI (para Kindle). Uma versão em inglês (capa acima) está a venda na Amazon.com.

Posts recentes


Olho no México

O Brasil não precisa deixar a captura do estado ir tão longe. O caso Cachoeira poderia ser o sinal de alarme para um pacto contra a corrupção política e o crime organizado.

Deixem o governador falar

O PSDB precisa resolver: ou defende claramente o governador Marconi Perillo, ou admite claramente que não tem condições de defende-lo.

Bem na foto

Não tem como negar: a atual presidente e os ex, todos eles, estão bem na foto da instalação da Comissão da Verdade.

Problemas na “Lei Dieckmann”

Os deputados não devem, na pressa, perder a oportunidade de ouvir mais quem entende do assunto e corrigir as falhas do projeto.

FHC e Jefferson

Sobre a concessão do Prêmio Kluge a FHC: "Não só é a primeira pessoa com uma carreira política pessoal relevante a ganhar este prêmio, como é também um representante acabado do que chamamos cientista social. Se quiser fazer uma comparação americana, ele é como Jefferson".

Salvo pelo BNDES

Opinão d'O Globo: "É necessário averiguar os vestígios de interferência política na compra da Delta pelo JBS".

Não dá para não ler

As suspeitas sobre os dois governadores são parecidas: ligações impróprias com Carlos Cachoeira. O tratamento editorial da Folha varia. Um governador, de Goiás, é "tucano". O outro, petista, é "do DF".

Para não dizer que eu não falei da Globo

A Virada Cultural paulistana foi um desastre e o Viradão Carioca um sucesso, segundo O Globo. Não sei se vou para o Rio na próxima virada ou assino outro jornal.

Quem merece essa jurisprudência?

Como a nota não cita fonte, nunca se sabe... Espero que não seja verdadeira. Se o PSDB se deixar enquadrar desse jeito, já era.

Mais inteligentes, menos violentos

Posso acreditar que a razão venha nos salvar das formas endêmicas de violência. Se não é verdade, é bem sacado. Os homicídios estão mesmo em queda em São Paulo e até no Rio de Janeiro. Podem muito bem continuar a diminuir no planeta.

Mais herança maldita

Governadores e prefeitos fariam melhor de não esperar sentados pela próxima onda de greves dos funcionários em geral e ameaças de motim da polícia.

Brecha na proibição do aborto

Para quem acredita em alma, o feto que não tem cérebro deve ser protegido mesmo assim porque tem alma.

A língua do PT

"Hegemonia", na língua do PT, é isso: a pretensão de reescrever numa penada o dicionário e a história do Brasil.

Até 2020

Tomando nota: três tendências ou fatos que devem ter forte impacto sobre o equilíbrio do mundo até 2020.
Mais posts