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Vender melhor

Míriam Leitão, O Globo, 11/01/12

O ano passado foi o ponto mais alto do preço de várias commodities que o Brasil exporta, e para 2012 a previsão é de redução nesses valores. O preço médio da soja foi US$495 a tonelada e este ano deve cair 13% e ficar em US$430, segundo a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O minério de ferro ficou em US$126 e deve cair para US$105. A AEB prevê queda no saldo comercial.

No ano passado, a mediana das previsões de mercado previa US$8,7 bilhões de superávit, a AEB previu US$26 bi, e terminou o ano em US$29 bilhões. O mercado errou redondamente, e a associação se aproximou bastante. Agora, o presidente em exercício da entidade, José Augusto de Castro, fala em US$3 bilhões de saldo para 2012, mas diz que não se surpreenderá se for um resultado negativo.

O economista Winston Fritsch, sócio da Oriente Investimentos, acha que isso pode ter uma pressão sobre o dólar, mas lembra que não se pode usar apenas o comércio exterior, ou o déficit em transações correntes, para tentar prever a taxa de câmbio no Brasil. Segundo ele, o dólar será definido pela crise da Europa, porque em momentos de tensão não há porta de saída possível que não seja a moeda americana; nesse caso, ela se valoriza em relação a todas as moedas do mundo.

Na semana passada, entrevistei Winston Fritsch e José Augusto de Castro na Globonews. O presidente da AEB me deu também dados de um estudo que está preparando sobre o comércio exterior brasileiro em que mostra que, apesar do bom resultado do ano passado, as exportações brasileiras continuam patinando, e que a alta é resultado de elevação de preços.

Em 2001, o café estava sendo vendido a US$964 a tonelada; no ano passado, foi a US$4.463. Esse é um dos poucos produtos da nossa pauta cuja previsão é de nova alta este ano, para US$4.600. A soja, que no ano passado chegou a US$495, era vendida a US$173 em 2001. Em dez anos houve um aumento de 186%. Açúcar saiu de US$197 a tonelada para US$573, e este ano o preço previsto é de US$530. Carne bovina saiu de US$2.006 para US$5.077 em dez anos, e este ano a previsão é ficar em US$5.000. Minério de ferro deu um salto de US$18 para os US$126 do ano passado.

O Brasil foi muito beneficiado pelo boom de commodities. Isso produziu um salto impressionante nas receitas com esses produtos. De café, o Brasil tinha receita de exportação de US$1,2 bilhão e foi para US$8 bi. Soja saiu de US$2,7 bilhões para 16,3 bi entre 2001 e 2011. Para 2012, a previsão da AEB é que não chega a US$14 bilhões. De açúcar e açúcar refinado, o Brasil vendeu US$ 2,2 bilhões em 2001, e US$5,8 bi no ano passado. No minério de ferro, deu um salto fenomenal, de US$2,9 bilhões, em 2001, para US$41,8 bi, no ano passado, 14 vezes mais. Em 2012, a previsão é de US$332,6 bilhões de exportações totais. Nesse período, houve aumento da quantidade exportada também, porque a demanda cresceu, mas o preço subiu mais rapidamente.

Quando se comparam com os outros países se vê que o Brasil mal saiu do lugar.

— As exportações brasileiras foram 1,4% das exportações mundiais no ano passado, o mesmo número de 1985. O Brasil é o 22º do mundo em exportação. Alguma coisa está muito errada com o comércio exterior, porque o Brasil mudou muito de 1985 até agora — afirma Winston Fritsch.

O histórico do ranking mundial montado pela AEB registra que o Brasil em 1970 era o 20º lugar. Depois, caiu vários pontos nessa classificação e em 2000 era o 28º. Em 2012, voltará ao lugar em que estava em 1970. A Índia era o 30º e em 2012 será o 16º. A maior parte da exportação da Índia é de produtos industrializados. A China era o 29º e agora é o primeiro. A Coreia em 1970 era o 49º e agora é o sexto maior exportador mundial.

Em resumo, os preços dos produtos que o Brasil exporta deram saltos; o volume vendido aumentou, mas o país continua vendendo relativamente a mesma coisa. Vários países mesmo sem as vantagens de grandes produtores de matérias-primas e alimentos tiveram desempenho melhor do que o do Brasil.

O que os dois especialistas disseram é que falta ao país muita coisa: cultura exportadora, infraestrutura de qualidade, inovação, esforço para exportar produtos com maior valor agregado, educação, redução de custos, aumento da eficiência.

— Os nossos problemas são todos internos; se melhorarmos a infraestrutura, a carga tributária, o custo financeiro, o sistema previdenciário, a excessiva burocracia seriamos muito mais eficientes. Temos 17 ministérios para tratar do comércio exterior e cada um fala uma língua diferente; não temos política de governo, temos políticas de ministérios — diz José Augusto de Castro.

Enquanto José Augusto está preocupado com a reprimarização da economia — em 1995 os produtos básicos eram 22,61% do que o Brasil exportava, no ano passado foram 48% — Winston acha que o Brasil tem também que incentivar aquilo que já se faz bem.

— A infraestrutura no Brasil é uma porcaria; temos que investir em corredores para certas commodities, para as quais o frete é fundamental — afirma Winston.

O Brasil tem sido levado pela onda de valorização dos produtos que exporta, mas não tem qualquer visão estratégica em comércio exterior.

economia · comércio exterior, commodity, custo brasil
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