Viagem rumo ao Centrão
Seria irônico, se não fosse trágico, constatar que, enquanto a sociedade brasileira celebrava o que pareciam sintomas do amadurecimento da sua democracia (a chegada do primeiro operário ao poder etc), fortaleciam-se de tal forma no seio do poder as forças do atraso que, quando o ex-presidente Sarney afirma que o PMDB é o partido da estabilidade nacional, não se sabe mais se ele está fazendo uma análise ou uma ameaça.
A respeito, vale ler a análise do cientista político Cláudio Gonçalves Couto, publicada hoje no Valor, sobre os alinhamentos partidários no Brasil.
Cláudio divide os partidos brasileiros em quatro blocos: um, que poderia ser chamado de centro-esquerda, alinhado em torno do PT, formado por ele mais, principalmente, PCdoB, PSB (apesar de ter alianças importantes com PSDB no Sul e Sudeste) e PDT; outro que órbita ao redor do PSDB, de centro ou centro-direita, que reúne também DEM e PPS; o “bloco do eu sozinho” do PSOL, sistematicamente contra todos os governos; e por último o bloco do que ele chama “partidos de adesão” – o PMDB é o principal, mas a lista é longa, incluindo PR, PP, PTB, PV e demais. Ele não usa o termo, mas esse agrupamento tem (ou pelo menos já teve) nome próprio no nosso jargão político: é o famoso Centrão. Faltariam nesta classificação apenas os “sonháticos”, que ontem decidiram correr por fora disso tudo.
Seu comentário se concentra no Centrão, para ele “a pedra-angular de nosso presidencialismo de coalizão, para o bem e para o mal”:
“Para o bem, na medida em que garante a robusta sustentação parlamentar que tem-se mostrado tão eficaz aos governos brasileiros dos últimos 19 anos, assegurando a aprovação de suas agendas e permitindo aos presidentes dotados de maioria legislativa o protagonismo da formulação legislativa. (…)Entretanto, tal arrimo tem um custo nada negligenciável, pois a manutenção dessa sustentação parlamentar requer substanciosas concessões àqueles dispostos a apoiar qualquer governo e qualquer agenda (com certos limites), desde que bem remunerados”.
O primeiro problema é a natureza destes partidos, e a análise que o texto faz do PR vale, em linhas gerais, para os demais. Não são agremiações “com qualquer veleidade programática, (…) com lideranças classificáveis como formuladores competentes de politicas públicas, defensores de causas amplas ou de interesses publicamente defensáveis”. Seu funcionamento se parece mais com o de “um condomínio de políticos profissionais a serviço de seus financiadores de campanha e de si próprios”.
Já o segundo problema é o tamanho a que chegou esse bloco. Os números impressionam: o Centrão tem hoje 46% das cadeiras da Cãmara e do Senado. E embora Cláudio não comente em seu artigo, o fato é que ele tende a crescer ainda mais: lembremos que o PSD de Gilberto Kassab o engordará substancialmente, e que o PV já deixou claro que não pretende se arriscar em outras aventuras.
Em artigo publicado na Revista Piauí, outro cientista político, Marcos Nobre, identifica nesta tendência (que ele chama de pemedebização) um risco sério: o da paralisação do nosso sistema político, num nível equivalente à enfrentada pelo país nos anos 80, com consequências graves para o funcionamento do Estado e sua própria legitimidade. Para Nobre, “o resultado regressivo desse processo é visível a olho nu: uma política que tende a se descolar da sociedade, uma política que tende a se fechar sobre si mesma. E que, no limite, pode levar à paralisia”. Uma análise que, num momento em que assistimos diariamente a manifestações da “base aliada” a chantagear o Governo Dilma, – com apenas seis meses de gestão – parece dotada de um assustador poder profético.





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