Virando a virada
Para Celestinha, minha filha.
Todo fim é começo. O último instante do ano velho faz o primeiro momento de um tempo que, na imaginação individual e coletiva, renasce travestido de 2010. O truque do coletivo é fazer com que os indivíduos sintam-se como inventores de algo que é de todos e foi legitimado pelo sistema: pelo conjunto que embrulha todos e cada um de nós. A euforia desses rituais de passagem de calendário com suas promessas de progresso tem símbolos explícitos. Num mundo marcado pelo consumo e pela busca de felicidade (não importa as consequências), enfatizamos as compras que, com seus embrulhos, sinalizam sucesso.
Programamos diferenças, começando pelo feriado que libera para comer e beber os filhos do Brasil: os políticos em geral, livrando-os de suas duríssimas tarefas de não fazer nada e, entre um drinque e outro (que sacrifício…), fazer campanha eleitoral.
Enfim, de todas essas praticas narcisistas que fazem parte desses cargos, aristocratizando e enriquecendo seus donos que se presenteiam com mais poder, enquanto distribuem os panetones de sempre para o povo: estradas mal construídas, superfaturadas e em péssimo estado; recusa a criar planos urbanos decentes.
Há um elo entre transição e percussão.
Enquanto, no Norte, as pessoas superagasalhados e imóveis, cantam Christma’s Carols, num Brasil equatorial entramos pelados na batucada.
No remelexo das pausas essenciais para o grande orgasmo dos fogos de artifícios que, como sabiam os chineses, seriam o seu símbolo mais poderoso: o explosivo encanto colorido causado pela beleza que sai de dentro de um canudo e dura uns poucos segundos. Devidamente envolvida por um fogo fugaz, a consciência luta entre lembrança e esquecimento, essas marcas de todo prazer intenso.
O alto preço dos fogos de artifício, por oposição aos fogos reais, que queimam, produzem cozimento e matam, tem como objetivo fazer o impossível: dividir pelo barulho ritmado e pelo visual relampejante, a corrente contínua do tempo. É como tentar fatiar água.
Esse ato impossível, contudo inscrito em toda celebração.
É também o momento em que se vira turista. O turismo é um modo de sair, ficando. O cara vai à Índia, mas não sai do hotel onde toma coca-cola e come ovos com bacon.
Alguns amigos foram para “fora”... do Brasil, é claro! Coisa chique que, desde os tempos dos Bragança que desbragançaram o Brasil, mostra o nosso pendor de “ir embora do Brasil”, acentuando como ele é indigno de nós. De qualquer forma, o abandono coletivo das rotinas promove uma mudança do fluxo do tempo, ajudando a construir a ilusão — mais do que uma reles mentira — da mudança.
Perguntam-me: tens viajado? Ou seja: tens ainda o antigo prestígio de ser um brasileiro que mora fora? E eu: não! Agora, viajo pra dentro! Faça o exercício. Excursione para dentro de si mesmo. Visite os Estados Unidos dos Recalques, o país daqueles seres e experiências que você tentou expulsar de dentro de si mesmo.
Passeie pelas Europas da Paris dos amores frustrados. Visite a Terra de Ninguém das Grandes Broxadas, lugar onde o nosso querido Ziraldo jamais pisou. Não perca o Louvre e o British Museum dos tesouros e inocências perdidos. Aproveite o carrossel, a roda gigante, o show e o picolé que rapidamente derrete de Sexolândia.
Compre na maravilhosa Bloomingdale que está dentro de você um último modelo de ressentimento — a chegar em breve ao Brasil. Nestas grandes lojas, aliás, as ingratidões, os ódios e as invejas sempre estão em liquidação e são baratíssimos. Siga, depois, até o país mais aberto do mundo, o do Sofrimento — uma terra igualitária e sem fronteiras. Lá, você pode conferir o volume da sua cachoeira de egoísmo, cretinice e inveja que alimenta o lago do sucesso que você com frequência atribui aos outros. Agora, lembre-se que você precisa de um passaporte devidamente visado para penetrar nos Territórios Tabus e para percorrer o fedorento Pântano da Traição, habitado por jacarés com suas numerosas (15, diz o jogo do bicho) máscaras.
Só ouse subir até o último andar do edifício das Fantasias Eróticas com a cabeça aberta ou fresca. E só entre na Roma e na Brasília das Promessas Populistas Triunfais de um Brasil Grande, onde cada palavra vale tanto quanto um confete, devidamente vacinado contra a demagogia, o culto de personalidade e a mentira. Mas não se esqueça, querido leitor, de escalar o Monte da Compreensão. No seu topo e num dia claro, você — quem sabe — poderá contemplar sua própria trajetória vendo com clareza os grandes e os pequenos obstáculos.
Dali, é possível ver o grande e profundo Oceano do Amor que recebe e devolve todos os nossos impulsos de gratidão, de reconhecimento, e de coragem. Essas coisas que transformam o frágil e o transitório nas únicas coisas que interessam a quem se tornou realmente humano.
Agora, sem querer ser chato, me diga: e se, além de tudo, nevasse no Brasil?
ROBERTO DaMATTA é antropólogo.





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